A mudança saiu do campo do debate e entrou no mundo real.
Em 27 de maio de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou, em dois turnos, a PEC que estabelece jornada máxima de 40 horas semanais em cinco dias de trabalho com dois dias de descanso, ou seja, o fim da escala 6×1.
A aprovação foi expressiva: 461 votos a favor e apenas 19 contrários no segundo turno.
Agora, a proposta aguarda votação no Senado, onde também precisará ser aprovada em dois turnos.
Para o setor de transporte rodoviário de cargas, o fim da escala 6X1 não é uma pauta trabalhista distante.
É uma mudança estrutural que vai atingir diretamente escalas de motoristas, custos operacionais, capacidade de entrega e competitividade das transportadoras — num setor que já opera no limite.
Fim da escala 6X1: o que a PEC aprovada prevê, exatamente
De acordo com o texto aprovado, após 60 dias da promulgação, a jornada será reduzida de 44 horas semanais para 42 horas.
Doze meses depois, a duração do trabalho cai para 40 horas semanais, com máximo de oito horas diárias.
Tudo isso sem qualquer redução salarial, seja nominal ou proporcional.
A transição em dois estágios foi incluída como concessão ao setor produtivo, mas o prazo total de adaptação é de cerca de 14 meses após a promulgação — um período curto para um setor acostumado a operar com margens apertadas e equipes enxutas.
Por que o transporte rodoviário é um dos setores mais expostos
O impacto do fim da escala 6×1 no transporte não é igual ao de outros setores.
O transporte rodoviário de cargas (TRC) tem características operacionais que amplificam os efeitos de qualquer mudança de jornada.
A primeira delas é a continuidade. O transporte rodoviário de cargas tem uma particularidade que muita gente fora do setor ignora: a operação não para.
Entrega, coleta, transferências e abastecimento rodam em janelas apertadas, com sazonalidades e variáveis como trânsito, filas, segurança, clima e restrições urbanas.
Reduzir horas disponíveis por trabalhador, sem aumentar o número de profissionais, significa ou atrasar entregas ou pagar mais caro por quem está disponível.
A segunda é a escassez de mão de obra, que já é crítica antes mesmo da mudança entrar em vigor.
Segundo dados da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), o Brasil enfrenta um déficit de mais de 120 mil motoristas profissionais, número que vem crescendo ano após ano e já ameaça o abastecimento e a logística de grandes empresas.
Pesquisa da CNT aponta que 65,1% das empresas de transporte rodoviário de cargas relatam falta de motoristas profissionais.
Além de dificuldades para contratar mecânicos, gestores operacionais e profissionais administrativos. Reduzir a jornada sem haver trabalhadores suficientes no mercado para suprir a demanda não resolve o problema — agrava.
Fim da escala 6×1 no transporte: os impactos concretos para quem gerencia frota
Custo operacional
Os números já estão sendo calculados pelo setor.
De acordo com um estudo técnico divulgado pela Mundo Logística, o fim da escala 6×1 no transporte pode provocar, no longo prazo, um impacto de R$ 11,88 bilhões no setor.
Inclusive, para as empresas, a alta nos custos com pessoal pode chegar a 8,6%.
Simulações do setor apontam aumento de aproximadamente 10% no custo por hora do motorista e necessidade de ampliação próxima de 18% da folha de pagamento para manutenção do atual nível operacional.
Para pequenas e médias transportadoras — que compõem a maioria do mercado — esse custo adicional é difícil de absorver.
O setor é majoritariamente formado por pequenas empresas: 90,5% dos empreendimentos têm até nove empregados.
Para esse grupo, a redução da jornada representa um desafio ainda maior, devido à menor margem operacional.
Gestão de escala e disponibilidade de motoristas
A mudança tende a aumentar os custos das transportadoras, especialmente com despesas trabalhistas.
A necessidade de reorganizar jornadas, contratar novos profissionais ou ampliar equipes administrativas pode elevar significativamente a folha de pagamento.
As empresas terão que investir mais em gestão de escalas, controle de jornada e planejamento operacional para manter a eficiência das operações dentro das novas regras.
Na prática, a nova escala exige que cada gestor de frota recalcule sua capacidade operacional real: quantos motoristas são necessários para cobrir o mesmo volume de rotas com 40 horas semanais?
O número quase sempre é maior do que o atual — e o mercado não tem esse excedente disponível.
Pressão sobre o frete e o preço final
O aumento de despesas não fica restrito às transportadoras, mas se espalha por toda a cadeia logística.
O resultado final pode ser sentido diretamente pelo consumidor, já que esses custos costumam ser repassados ao preço dos produtos.
Isso coloca o gestor de transporte numa posição delicada: absorver o custo — comprimindo ainda mais a margem — ou repassar ao frete, arriscando perder contratos para concorrentes que encontrarem formas de se adaptar com mais eficiência.
O que fazer agora: três frentes de ação
A janela de adaptação existe, mas é curta. As empresas que saírem na frente no planejamento vão ter mais controle sobre como a mudança afeta sua operação.
As que esperarem vão reagir sob pressão.
Mapear a operação atual com critério. Antes de qualquer decisão, é preciso entender quantas horas cada motorista trabalha hoje, quais rotas dependem de jornadas estendidas e onde estão os pontos de maior vulnerabilidade com a redução de horas. Sem esse diagnóstico, qualquer plano de adaptação será baseado em chute.
Investir em tecnologia de gestão de jornada. Controlar jornada por planilha ou memória vai se tornar inviável com a nova legislação.
Sistemas de telemetria, registro eletrônico de ponto e plataformas integradas de gestão de motoristas deixam de ser diferencial e passam a ser exigência operacional — tanto para cumprir a lei quanto para tomar decisões de escala com base em dados reais.
Antecipar o recrutamento. Nos últimos 24 meses, o custo com mão de obra no setor acumulou alta de 13,42%. Em 36 meses, o aumento chega a 20,2%.
Esperar o mercado de motoristas esquentar ainda mais para iniciar contratações é uma estratégia cara.
Quem estruturar banco de talentos e programas de formação agora vai ter um ativo competitivo real quando a lei entrar em vigor.
Fim da escala 6×1 no transporte: uma mudança com dois lados
É importante reconhecer que o fim da escala 6×1 no transporte também traz uma dimensão que vai além dos custos.
Embora a mudança, impacte, de fato, no planejamento das operações, motoristas que trabalham seis dias seguidos com uma única folga carregam uma carga física e mental significativa.
Fadiga é um fator real de risco operacional — acidentes, erros de rota, avarias de carga.
Uma equipe mais descansada pode, com a gestão certa, ser também uma equipe mais produtiva e menos sujeita a imprevistos.
O desafio real não é se adaptar à mudança, e, sim, se adaptar antes que ela imponha o ritmo.
A UNIGR tem as soluções para ajudar sua operação a se preparar.
Da gestão de frota à tecnologia embarcada, apoiamos transportadoras e operadores logísticos a enfrentar mudanças estruturais com planejamento, dados e eficiência operacional.
Conheça os serviços da UNIGR e descubra como sua empresa pode sair na frente nessa transição.
Fale conosco — nosso time está pronto para entender a realidade da sua operação e construir o melhor caminho junto com você.



