Um motorista profissional se envolve em uma discussão no trânsito. O conflito aumenta. Em poucos segundos, uma decisão impulsiva coloca o caminhão, a carga, outros veículos e diversas pessoas em risco.
Situações assim chamam atenção quando aparecem em vídeos nas redes sociais, mas levantam uma questão muito maior para transportadoras: até onde vai a responsabilidade da empresa sobre o comportamento de quem conduz seus veículos?
O gestor não consegue controlar cada decisão tomada pelo motorista na estrada. Mas uma boa gestão de motoristas na frota pode reduzir significativamente a exposição da operação a comportamentos de risco por meio de seleção, treinamento, acompanhamento, políticas internas e identificação precoce de desvios.
E esse cuidado precisa ir além de ensinar alguém a dirigir um caminhão.
Brigas no trânsito: um risco que não deve ser ignorado pelas transportadoras
Discussões entre motoristas podem parecer acontecimentos pontuais, mas os dados ajudam a dimensionar o problema.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Real Time Big Data em 2024 mostrou que 66% dos brasileiros entrevistados já haviam presenciado uma briga entre condutores. Mais de 80% admitiram já ter xingado outros motoristas e quase 70% disseram já ter feito gestos ofensivos no trânsito.
Outro levantamento, citado pelo Departamento Municipal de Transportes e Trânsito de Maceió em 2026, aponta que 43% das pessoas admitiram já ter vivido episódios de fúria ao volante e 45% disseram ter presenciado discussões ou brigas no trânsito.
Esses comportamentos ganham outra dimensão quando falamos de motoristas profissionais. Um caminhão possui massa, dimensões e características operacionais que tornam qualquer atitude agressiva ou decisão impulsiva potencialmente muito mais grave.
Para uma transportadora, portanto, comportamento também precisa ser tratado como risco operacional.
O que pode levar um motorista profissional a adotar um comportamento de risco?
Não existe uma causa única.
Uma reação perigosa ao volante pode envolver uma combinação de fatores pessoais, emocionais, operacionais e ambientais. Por isso, seria um erro reduzir o problema simplesmente a “motorista irresponsável”.
Uma revisão científica sobre violência no trânsito identificou influência de fatores como irritabilidade, desregulação emocional e privação do sono sobre comportamentos impulsivos e agressivos e sobre a tomada de decisão no trânsito.
Para quem administra uma frota, alguns fatores merecem atenção especial.
1. Agressividade e conflitos no trânsito
Uma fechada, uma ultrapassagem, uma buzina ou uma discussão pode provocar uma reação desproporcional.
O problema começa quando o motorista deixa de priorizar a condução segura para responder ao comportamento de outra pessoa.
Perseguir outro veículo, bloquear passagem, acelerar para impedir uma ultrapassagem ou usar o próprio caminhão durante uma disputa transforma um conflito interpessoal em um risco para toda a via.
A orientação da empresa precisa ser inequívoca: o motorista profissional não deve responder a provocações.
Diante de uma situação de agressividade, a prioridade deve ser se afastar do conflito sempre que isso puder ser feito com segurança e seguir os protocolos estabelecidos pela empresa.
2. Álcool e outras substâncias psicoativas
A condução sob efeito de álcool ou outras drogas representa um risco conhecido para a segurança viária.
A Organização Pan-Americana da Saúde afirma que dirigir sob influência de álcool ou substâncias psicoativas aumenta o risco de colisões com mortes e lesões graves.
No transporte profissional, o assunto também precisa ser analisado dentro do contexto de trabalho.
Um estudo com caminhoneiros profissionais encontrou associação entre jornadas prolongadas, sintomas de insônia e maior prevalência do uso de pelo menos uma substância psicoativa. Isso mostra por que políticas de prevenção não devem existir isoladamente: jornada, descanso, condições de trabalho e comportamento precisam fazer parte da mesma estratégia.
3. Fadiga e excesso de jornada
Um motorista cansado não precisa necessariamente dormir ao volante para representar um risco.
A fadiga pode comprometer atenção, percepção e capacidade de decisão.
Uma revisão sobre fadiga em motoristas profissionais encontrou o tempo total dirigindo como o fator de risco para sinistros mais citado entre os estudos analisados. A mesma revisão identificou o treinamento em práticas seguras de direção como o principal fator de redução de risco abordado na literatura selecionada.
Por isso, gestão de jornada não deve ser vista apenas como uma questão administrativa.
Também é gestão de risco.
4. Sinais comportamentais ignorados pela empresa
Nem todo problema aparece pela primeira vez em um grande incidente.
O motorista pode apresentar anteriormente:
- reclamações recorrentes sobre comportamento agressivo;
- excesso de velocidade;
- acelerações e frenagens bruscas frequentes;
- conflitos com outros motoristas ou profissionais da empresa;
- descumprimento de procedimentos;
- infrações recorrentes;
- resistência a treinamentos e orientações;
- alterações relevantes de comportamento durante o trabalho.
Um evento isolado não permite concluir automaticamente que existe um problema. Mas padrões recorrentes precisam ser investigados.
É justamente aqui que a gestão de motoristas na frota deixa de ser reativa e passa a ser preventiva.
O que o gestor de frota pode fazer na prática?
O primeiro erro é acreditar que o assunto termina na contratação.
Ter habilitação e experiência não significa necessariamente que aquele profissional está preparado para todas as situações que encontrará na operação.
A empresa precisa construir mecanismos contínuos de prevenção.
Crie uma política clara de conduta no trânsito
O motorista precisa saber exatamente qual comportamento a empresa espera diante de provocações, conflitos, acidentes e situações de risco.
Por exemplo:
Se outro motorista provocar ou perseguir, qual é o procedimento?
Para quem ele liga?
Quando deve interromper a viagem?
Como deve registrar a ocorrência?
Não deixe decisões críticas dependerem exclusivamente do improviso.
Treine situações reais, não apenas regras
Um treinamento de direção defensiva pode ir além de placas, legislação e procedimentos técnicos.
Apresente situações que realmente acontecem:
“Um veículo fecha seu caminhão. O que você faz?”
“Outro motorista começa a persegui-lo.”
“Você percebe que está irritado e perdendo a concentração.”
“Um colega apresenta sinais de que não está em condições de dirigir.”
O objetivo é fazer o profissional pensar antes de enfrentar a situação na estrada.
Use a telemetria também para identificar comportamento
Telemetria não serve apenas para acompanhar localização.
Dependendo dos recursos disponíveis na frota, dados sobre velocidade, aceleração, frenagem e outros eventos podem ajudar a identificar padrões de condução que merecem atenção.
O ponto não é usar tecnologia apenas para punir.
É transformar dados em informação para orientar, treinar e corrigir comportamentos antes de um evento grave.
Crie canais seguros de comunicação
Imagine que um motorista perceba que não está emocionalmente bem para continuar a viagem.
Ele se sente confortável para comunicar isso?
Ou acredita que será imediatamente punido?
O mesmo vale para suspeitas de consumo de substâncias, fadiga extrema, conflitos e outras situações que possam comprometer a segurança.
Uma política existe no papel. Uma cultura de segurança aparece na forma como as pessoas agem quando surge um problema.
Acompanhe reincidências
Uma multa isolada e cinco multas pelo mesmo comportamento contam histórias diferentes.
O mesmo raciocínio vale para eventos de telemetria, reclamações, acidentes, conflitos e descumprimentos de procedimento.
A gestão precisa enxergar o histórico.
Isso permite identificar quais profissionais precisam de orientação adicional, reciclagem, acompanhamento ou outras medidas adequadas à política da empresa e à legislação aplicável.
Treinamento de motoristas não deve acontecer somente depois de um acidente
Existe uma diferença importante entre gestão preventiva e gestão reativa.
Na gestão reativa:
acontece o acidente → a empresa investiga → identifica o problema → treina o motorista.
Na gestão preventiva:
a empresa identifica o risco → intervém → acompanha → tenta evitar que o acidente aconteça.
O segundo modelo exige mais maturidade de gestão.
E os números mostram por que isso importa. Em 2025, as rodovias federais brasileiras registraram mais de 72 mil sinistros, aproximadamente 6 mil mortes e mais de 83 mil feridos.
O problema da segurança viária é muito maior do que o comportamento individual de um motorista, mas esses números ajudam a mostrar a dimensão das consequências quando a prevenção falha.
Gestão de frota também é gestão de pessoas
Uma empresa pode investir em caminhões modernos, rastreamento, manutenção preventiva, sistemas de segurança e tecnologia.
Mas ainda existe uma pessoa tomando decisões atrás do volante.
Por isso, uma estratégia madura de gestão de motoristas na frota precisa considerar veículo, processo e comportamento como partes do mesmo sistema.
O gestor não consegue garantir que nenhum motorista cometerá um erro. Também não consegue prever todas as situações que acontecerão durante uma viagem.
O que ele pode fazer é construir barreiras para que um problema individual tenha menos chances de se transformar em um acidente.
Selecionar bem. Treinar continuamente. Monitorar indicadores. Controlar jornadas. Criar protocolos. Identificar padrões. Orientar. E agir quando os primeiros sinais aparecem.
Gestão de frota também é gestão de pessoas.
Sua operação está preparada para identificar esses riscos?
Antes de criar novos processos, é importante entender quais pontos da gestão já funcionam e onde estão as vulnerabilidades.
O Diagnóstico de Maturidade em Gestão de Frota da UNIGR ajuda a empresa a avaliar diferentes aspectos da operação e identificar oportunidades de evolução.
Faça o diagnóstico e descubra onde a gestão da sua frota pode melhorar



